Por que fundadores precisam mudar junto com as empresas que constroem

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Criar uma empresa pede visão; continuar útil à frente dela por mais de três décadas pede evolução constante. A trajetória da Nvidia mostra como um líder pode mudar de escala, repertório e papel sem abandonar os princípios do negócio.

1. O desafio que quase ninguém discute

Em 1993, Jensen Huang fundou a Nvidia ao lado de Chris Malachowsky e Curtis Priem. Naquele momento, o mercado de gráficos computacionais ainda era fragmentado. Havia mais de vinte empresas disputando espaço e, poucos anos depois, esse número chegaria a dezenas. A Nvidia era apenas mais uma delas. Hoje, a companhia está no centro de uma transformação global em computação acelerada e inteligência artificial. No ano fiscal de 2026, registrou receita de US$ 215,9 bilhões, crescimento de 65% em relação ao ano anterior.

A escala atual torna fácil olhar para trás e construir uma narrativa de inevitabilidade. Mas ela não existia. A Nvidia não nasceu como “a empresa da inteligência artificial”. Nasceu com outra pergunta, outro mercado e outro contexto. E talvez esse seja o ponto mais interessante de sua trajetória. Empresas mudam. Mercados mudam. Tecnologias mudam. Clientes mudam. O líder que permanece exatamente igual durante todo esse processo tende a se tornar inadequado para a própria organização que criou.

2. O fundador que serve para a empresa de hoje pode não servir para a empresa de amanhã

Existe uma romantização frequente do fundador. A pessoa que teve a ideia inicial passa a ser vista como naturalmente preparada para comandar todas as etapas futuras daquele negócio. Mas não existe nenhuma razão lógica para isso acontecer automaticamente. As competências necessárias para montar uma empresa com dez pessoas são diferentes das necessárias para administrar uma organização com milhares de funcionários.

No início, o fundador pode estar envolvido diretamente no produto, na contratação, nas vendas, na captação e até em tarefas operacionais. Conforme a empresa cresce, essa dinâmica se torna impossível. O problema deixa de ser: “Como fazemos isso?” E passa a ser: “Como construímos uma organização capaz de fazer isso sem depender de uma única pessoa?” Esse é um dos momentos mais delicados no crescimento de qualquer empresa.

O fundador precisa aprender a deixar de ser apenas executor para se tornar construtor de sistemas. E, depois, precisa mudar novamente.

3. Liderança é uma competência que muda de natureza

Em uma empresa pequena, liderança pode significar convencer dez pessoas de uma visão. Em uma organização global, significa criar mecanismos para que milhares compreendam prioridades semelhantes sem depender de contato direto com o CEO. A escala transforma tudo. Comunicação. Processos. Estrutura. Cultura. Distribuição de poder. Tomada de decisão. O próprio conceito de liderança deixa de ser individual e passa a ser organizacional.

Isso significa que um dos papéis mais importantes de quem lidera uma empresa em crescimento é criar sistemas que permitam que boas decisões continuem acontecendo mesmo quando o líder não está presente. A organização precisa desenvolver memória própria. Critérios próprios. Rituais próprios. Capacidade própria de interpretar o mercado. Caso contrário, o fundador se transforma no maior gargalo da companhia.

4. A primeira transformação da Nvidia

A Nvidia começou concentrada em gráficos para computadores pessoais. Em 1999, a empresa lançou a GeForce 256, apresentada como a primeira GPU, consolidando uma arquitetura que ajudaria a redefinir os gráficos computacionais em tempo real. Esse movimento foi essencial para o mercado de games. Mas o que posteriormente tornaria a Nvidia ainda mais relevante não estava necessariamente naquilo que a GPU fazia originalmente. Estava em sua arquitetura. GPUs são capazes de executar muitos cálculos paralelamente.

Durante anos, essa capacidade era particularmente útil para gráficos. Com o tempo, pesquisadores começaram a perceber que o mesmo princípio poderia ser utilizado para outros tipos de computação. Esse foi um ponto estratégico importante. A Nvidia poderia ter permanecido uma excelente companhia de hardware para games. Em vez disso, passou a observar usos mais amplos para a infraestrutura que havia construído. É uma diferença fundamental. Empresas podem se definir pelo produto que vendem.

Ou podem se definir pela capacidade que desenvolveram. A segunda definição costuma abrir mercados maiores.

5. O risco de acreditar demais na própria categoria

Toda empresa bem-sucedida corre um risco paradoxal. Quanto melhor ela se torna em determinada coisa, maior pode ser a dificuldade de imaginar um futuro diferente. Processos são construídos. Talentos são contratados. Metas são definidas. Investidores desenvolvem expectativas. Clientes passam a associar a marca a determinada categoria. O sucesso cria foco. Mas também cria inércia. Por isso, empresas consolidadas frequentemente encontram dificuldade diante de rupturas tecnológicas.

Não necessariamente porque não percebem a mudança. Muitas vezes, percebem. O problema é que responder a ela exige questionar estruturas que ainda funcionam muito bem. A Nvidia conseguiu atravessar diferentes ciclos justamente porque seu posicionamento evoluiu. De gráficos para computação paralela. De computação paralela para computação acelerada. De computação acelerada para infraestrutura de inteligência artificial. A empresa foi ampliando a interpretação de sua própria capacidade.

Isso exige uma liderança capaz de fazer a mesma coisa.

6. A decisão que não entrega resultado imediatamente

Um dos movimentos mais importantes da Nvidia aconteceu em 2006, com o lançamento do CUDA. O CUDA permitiu que desenvolvedores utilizassem GPUs para tarefas de computação além de gráficos. Naquele momento, o retorno financeiro dessa aposta não era necessariamente óbvio. Criar um ecossistema de software significava investir em algo cujo benefício poderia levar anos para amadurecer. Mas a decisão ampliava dramaticamente a utilidade do hardware da empresa. É uma lição importante sobre estratégia.

Alguns investimentos não são feitos porque o mercado atual exige. São feitos porque a empresa acredita que determinado mercado poderá existir no futuro. Isso muda a pergunta. Em vez de: “Quanto isso gera de receita agora?” Passa a ser: “Que possibilidades isso cria para nós daqui a cinco ou dez anos?” Essa lógica é difícil em organizações pressionadas por resultados trimestrais. Mas muitas vantagens competitivas profundas exigem exatamente esse tipo de horizonte.

7. O mercado nem sempre valida a estratégia rapidamente

Uma das dificuldades da liderança de longo prazo é conviver com períodos em que a decisão ainda não parece correta. Hoje é fácil olhar para o CUDA e enxergar sua importância. Mas durante anos, aplicações de computação paralela permaneceram menores comparadas ao mercado tradicional de gráficos. Depois, pesquisas em deep learning começaram a utilizar GPUs de maneira cada vez mais relevante. Em 2012, o AlexNet ajudou a demonstrar como GPUs poderiam acelerar significativamente o treinamento de redes neurais profundas.

O mercado mudou. E a infraestrutura criada anos antes passou a fazer sentido de uma forma muito maior. Esse tipo de resultado produz uma ilusão retrospectiva. Parece que a empresa sabia exatamente o que aconteceria. Provavelmente não sabia. O mais relevante é que ela havia construído uma posição capaz de se beneficiar caso aquela direção se confirmasse. Estratégia de longo prazo não significa prever o futuro com precisão. Significa construir capacidades que aumentem a quantidade de futuros favoráveis possíveis.

8. Persistir não é insistir cegamente

A trajetória da Nvidia também ajuda a separar dois conceitos frequentemente confundidos: persistência e rigidez. Persistir significa sustentar uma convicção enquanto as evidências continuam justificando sua existência. Rigidez significa continuar igual mesmo quando o mundo mudou. Bons líderes precisam aprender a distinguir as duas situações. É possível abandonar uma estratégia cedo demais. Mas também é possível permanecer nela tempo demais. Essa distinção não aparece em fórmulas simples. Ela exige julgamento.

Quais hipóteses continuam verdadeiras? O que mudou? Estamos vendo um problema temporário ou estrutural? Precisamos alterar a execução ou a própria tese? Essa é uma das competências mais sofisticadas da gestão. Liderar não significa simplesmente “não desistir”. Significa saber exatamente do que não desistir.

9. O papel do pensamento de primeiros princípios

Em uma conversa na Stanford Graduate School of Business, Huang explicou sua preferência por raciocinar a partir de primeiros princípios. A lógica consiste em evitar aceitar automaticamente a forma como determinada atividade sempre foi realizada e retornar às condições fundamentais do problema. O que estamos tentando resolver? Quais restrições realmente existem? Quais pertencem apenas ao modelo antigo? O que mudou desde que esse processo foi criado? A partir daí, é possível reconstruir uma resposta.

Esse tipo de pensamento é especialmente útil em momentos de ruptura tecnológica. Quando as condições mudam, copiar o que funcionou anteriormente pode produzir decisões inadequadas. A história serve como referência. Não como prisão. Esse princípio também ajuda a entender por que líderes experientes não podem depender exclusivamente de experiência passada. Quanto mais tempo alguém permanece em determinada indústria, maior é seu repertório. Mas maior também pode ser sua exposição a pressupostos antigos.

Experiência gera vantagem quando é combinada com capacidade de questionar a própria experiência.

10. Cultura é uma infraestrutura invisível

À medida que uma organização cresce, o CEO não consegue participar de cada decisão. É nesse momento que cultura deixa de ser um conjunto abstrato de valores escritos em uma parede. Ela se transforma em mecanismo de gestão. Cultura ajuda pessoas a responder perguntas quando não existe uma regra clara. O que priorizamos? Qual nível de qualidade aceitamos? Quão rapidamente decidimos? Como reagimos quando algo dá errado? Quem pode questionar uma decisão? Como informações ruins chegam à liderança?

Essas respostas moldam centenas de decisões diárias. Uma organização que depende exclusivamente de processos formais pode se tornar lenta. Uma organização que depende exclusivamente da intuição do fundador não consegue escalar. Cultura ocupa o espaço entre esses extremos. É um sistema informal de tomada de decisão.

11. A empresa precisa conseguir enxergar antes do CEO

Existe um problema clássico em organizações grandes. Quanto mais alto alguém está na hierarquia, maior a possibilidade de receber informações filtradas. Uma notícia ruim passa por um gestor. Depois por outro. Depois por outro. Até chegar à liderança transformada em uma versão mais confortável. Isso cria perigo. O CEO pode estar administrando uma representação da empresa que não corresponde mais à realidade. Por isso, líderes de organizações complexas precisam construir canais que reduzam essa distância.

O desafio não é apenas transmitir decisões de cima para baixo. É permitir que sinais importantes subam. Uma reclamação de cliente. Uma mudança tecnológica. Um comportamento inesperado de concorrente. Uma ideia surgida em uma equipe pequena. Organizações adaptáveis possuem mecanismos para fazer informação relevante circular rapidamente. Quando isso não acontece, tamanho se transforma em lentidão.

12. O paradoxo da escala

Empresas grandes possuem enormes vantagens. Capital. Marca. Talentos. Distribuição. Relacionamento com governos. Infraestrutura. Dados. Mas também acumulam fragilidades. Burocracia. Distância do cliente. Processos excessivos. Incentivos desalinhados. Medo de errar. Lentidão. O desafio da liderança é aproveitar as vantagens da escala sem permitir que suas consequências destruam a capacidade de inovação. Esse talvez seja um dos pontos centrais na trajetória da Nvidia.

A companhia de 2026 não possui nada da fragilidade financeira da startup de 1993. Mas precisa continuar tomando decisões como uma empresa que acredita que sua posição pode desaparecer. Jensen Huang costuma descrever a companhia a partir de uma sensação permanente de vulnerabilidade. Essa mentalidade pode parecer incompatível com uma empresa gigantesca. Na prática, pode funcionar como antídoto contra complacência.

13. Quando o mercado muda mais rápido do que a organização

A inteligência artificial acelerou dramaticamente o crescimento da Nvidia. No ano fiscal de 2026, a receita de Data Center cresceu 68% em relação ao ano anterior, impulsionada pela transição para computação acelerada e IA. Esse crescimento cria outro desafio. Administrar escassez é difícil. Administrar abundância também. Quando a demanda explode, uma empresa precisa contratar, produzir, negociar com fornecedores, expandir capacidade, desenvolver produtos e atender clientes simultaneamente.

O ritmo externo começa a pressionar toda a estrutura interna. Nesse contexto, liderança passa a exigir algo além de inovação. Exige capacidade operacional. Uma empresa pode identificar corretamente uma oportunidade gigantesca e ainda assim fracassar por não conseguir atendê-la. Visão sem execução produz frustração. Execução sem visão produz eficiência em direção ao lugar errado. Escala exige as duas coisas.

14. A liderança muda quando o negócio muda

Talvez essa seja a principal lição da trajetória de Huang. O CEO necessário em 1993 não poderia permanecer exatamente igual em 2026. A empresa precisou de um fundador capaz de vender uma ideia. Depois, de alguém capaz de construir produto. Depois, de competir em semicondutores. Depois, de criar um ecossistema de desenvolvedores. Depois, de enxergar computação acelerada. Depois, de operar infraestrutura global.

E agora, de participar de decisões que envolvem energia, data centers, cadeias de suprimentos, governos e centenas de bilhões de dólares em investimentos relacionados à IA. O cargo continuou o mesmo. O trabalho não. Essa distinção vale muito além da Nvidia. Profissionais também enfrentam versões menores dessa transformação. Alguém pode ser promovido porque é excelente executor e descobrir que sua nova função exige desenvolver outros executores.

Pode ser excelente especialista e precisar aprender a liderar uma equipe. Pode fundar uma empresa por dominar um produto e depois perceber que precisa compreender finanças, pessoas, estratégia e operações. Crescimento profissional frequentemente exige abandonar parte da identidade que produziu o crescimento inicial.

15. O perigo de se tornar indispensável

Existe uma ideia de liderança que associa valor à dependência. Se tudo passa pelo líder, ele parece essencial. Mas quanto mais uma organização cresce, mais perigosa essa dependência se torna. Um bom líder não deveria buscar ser indispensável para cada decisão. Deveria construir uma organização que continue funcionando com qualidade sem sua participação direta na maioria delas. Isso exige algo difícil: abrir mão de controle. Delegar. Aceitar decisões diferentes das que você tomaria. Desenvolver pessoas.

Construir critérios. Criar sistemas. O objetivo deixa de ser fazer o melhor trabalho individualmente. Passa a ser elevar a qualidade do trabalho coletivo. Essa transição é uma das maiores diferenças entre um excelente profissional e um excelente líder.

16. O fundador como arquiteto

No início de uma empresa, o fundador constrói o produto. Com o tempo, seu principal produto passa a ser a própria organização. Estrutura. Cultura. Pessoas. Capital. Incentivos. Processos. Estratégia. Capacidade de aprender. O líder começa a operar como um arquiteto. Não decide cada detalhe do que acontece dentro do edifício. Cria as condições para que o edifício funcione. Essa talvez seja uma forma mais útil de compreender liderança empresarial. Não como o exercício permanente de autoridade.

Mas como construção de capacidade coletiva.

17. O que a trajetória da Nvidia realmente ensina

A história da Nvidia poderia ser contada como uma história sobre chips. Ou sobre inteligência artificial. Ou sobre uma empresa que multiplicou seu valor ao encontrar o mercado certo. Mas existe uma leitura mais ampla. A empresa permaneceu relevante porque conseguiu reinterpretar continuamente aquilo que sabia fazer. E seu fundador permaneceu à frente porque precisou fazer o mesmo consigo próprio. Isso revela uma regra importante. Negócios que crescem obrigam pessoas a crescer.

Quanto maior a responsabilidade, menos suficiente se torna aquilo que já sabemos. Experiência não encerra o aprendizado. Ela aumenta a responsabilidade de continuar aprendendo.

Fontes consultadas

  1. Nvidia Investor Relations, resultados do ano fiscal de 2026 — investor.nvidia.com
  2. Nvidia, história da companhia e da computação acelerada — nvidia.com