Empreender Não É Dom: Por Que Todos Podem (e Devem) Pensar como Empreendedores
Empreendedorismo

Empreender Não É Dom: Por Que Todos Podem (e Devem) Pensar como Empreendedores

Equipe Mont25 Mar 202620 min de leitura

Dados do GEM, SEBRAE e pesquisas internacionais mostram que o comportamento empreendedor se aprende e se aplica em qualquer carreira

Quando alguém menciona a palavra 'empreendedor', a maioria das pessoas imagina uma cena específica: uma garagem no Vale do Silício, um jovem sem dormir por 72 horas, um pitch deck de 20 slides e um sonho de mudar o mundo. A mídia alimenta esse estereótipo com cobertura intensa de casos extraordinários. Esse enquadramento cria um problema sério: faz com que profissionais altamente capazes concluam que 'não são do tipo empreendedor'. E, ao fazer isso, deixam de desenvolver uma das competências mais valiosas do século XXI

Neste artigo
  1. 11. O Mito do Empreendedor Nato
  2. 22. As Muitas Faces do Empreendedorismo
  3. 33. O Intraempreendedor: Transformar de Dentro
  4. 44. O Empreendedor Replicador: A Inteligência de Ver Antes dos Outros
  5. 55. O Brasil Como Nação Empreendedora
  6. 66. Empreendedorismo Se Aprende
  7. 77. O Papel do Conhecimento de Gestão
  8. 88. Novas Formas de Empreender no Mundo Que Vem
  9. 99. Então, Quem Pode Empreender?
  10. 1010. Para o Futuro Profissional: O Que Fazer Agora

1. O Mito do Empreendedor Nato

O empreendedorismo não é quem você é. É como você pensa e age diante de um problema ou oportunidade, dentro ou fora de uma organização, em qualquer setor, em qualquer fase da carreira. O economista austro-americano Joseph Schumpeter, já em 1911, definia o empreendedor não como um fundador de empresa, mas como o agente da 'destruição criativa': alguém que rompe equilíbrios de mercado ao introduzir novas combinações. Em nenhum momento Schumpeter exigiu que esse agente tivesse CNPJ próprio

Décadas depois, Howard Stevenson, professor de Harvard, propôs uma definição ainda mais operacional: empreendedorismo é a busca de oportunidade independentemente dos recursos controlados no momento. Ou seja, empreender é reconhecer onde há valor a ser criado e mobilizar o que for necessário para criá-lo, mesmo sem ter, de partida, todos os recursos disponíveis

2. As Muitas Faces do Empreendedorismo

O empreendedorismo não é um fenômeno uniforme. Pesquisadores e escolas de negócios ao redor do mundo identificaram pelo menos quatro perfis distintos, todos legítimos, relevantes e alcançáveis por quem desenvolve as competências certas

TipoDefiniçãoExemplo brasileiro
Empreendedor fundadorCria uma nova empresa do zero. Identifica uma lacuna de mercado e constrói uma organização inteiramente nova para ocupá-laGuilherme Benchimol (XP), David Vélez (Nubank), Leila Velez (Beleza Natural)
IntraempreendedorAge de forma empreendedora dentro de uma organização existente: lança novos produtos, transforma processos, abre novos mercados sem criar uma empresa novaFrederico Trajano (Magazine Luiza), Satya Nadella (Microsoft), executivos da Embraer e Natura
Empreendedor replicadorIdentifica um modelo de negócio bem-sucedido em outro mercado ou região e o replica com adaptações, capturando valor antes que a concorrência chegueFranqueados do McDonald's, Madero expandindo pelo interior do Brasil, operadoras regionais de SaaS
Empreendedor socialAplica lógica empreendedora para resolver problemas sociais ou ambientais, muitas vezes criando organizações híbridas entre o lucrativo e o propósitoMovimento Bem Maior, Instituto Ayrton Senna, startups de impacto da Artemisia

Essa pluralidade tem implicações diretas na forma como pensamos a formação de profissionais. Se empreendedorismo é uma forma de pensar, aplicável em qualquer uma das quatro frentes acima, então ele precisa estar no centro da formação de todo administrador, gestor, engenheiro ou profissional de qualquer área

3. O Intraempreendedor: Transformar de Dentro

De todos os perfis empreendedores, o intraempreendedor talvez seja o menos celebrado e o mais frequente. Ele não funda uma empresa. Ele não aparece no Estadão ou na Forbes como 'o próximo unicórnio'. Mas é, muitas vezes, quem garante que empresas estabelecidas se reinventem em vez de morrer. O termo 'intrapreneur' foi popularizado por Gifford Pinchot III em seu livro de 1985, mas o fenômeno é ainda mais antigo

Para refletir

Frederico Trajano não fundou a Magazine Luiza. O que ele fez foi igualmente extraordinário: transformou uma rede varejista física, fundada antes da internet existir, em uma das maiores plataformas de e-commerce do país. Quando assumiu como CEO em 2016, a empresa tinha operações digitais modestas. Em poucos anos, reposicionou o Magalu como plataforma. As ações saltaram mais de 1.000% entre 2016 e 2020. Nenhuma nova empresa foi criada. A transformação veio de dentro

Pesquisa da McKinsey (2023) identificou que organizações com cultura de intraempreendedorismo crescem, em média, 2,3 vezes mais rápido do que empresas com estruturas rígidas e hierárquicas

4. O Empreendedor Replicador: A Inteligência de Ver Antes dos Outros

Existe uma visão romântica e equivocada de que o verdadeiro empreendedor é sempre o inventor. Na prática, a maioria dos negócios mais bem-sucedidos do mundo não inventou nada radicalmente novo. Eles identificaram o que funcionava em um contexto e tiveram a inteligência, a coragem e a competência de replicar isso em outro. O McDonald's não inventou o hambúrguer. Mas Ray Kroc enxergou, em uma lanchonete dos irmãos McDonald no interior da Califórnia dos anos 1950, um sistema de produção revolucionário e transformou aquilo em um dos maiores impérios empresariais da história

  • iFood: inspirado em modelos de delivery globais (DoorDash, Deliveroo), adaptou a proposta para a realidade brasileira e tornou-se o maior app de delivery da América Latina
  • Loft: trouxe o modelo de iBuyer imobiliário (popularizado por Opendoor nos EUA) para o fragmentado e burocrático mercado imobiliário brasileiro
  • Grupo Madero: Jordan Anderson identificou o conceito de 'fast-casual' já consolidado nos EUA e construiu uma rede nacional a partir de Curitiba
  • Franquias em geral: o Brasil é o 3º maior mercado de franquias do mundo (ABF, 2024), com mais de 180.000 unidades franqueadas

5. O Brasil Como Nação Empreendedora

21%

da pop. adulta brasileira tem negócio próprio em estágio inicial

GEM 2022

3º lugar

no mundo em número absoluto de empreendedores iniciais

GEM 2022

R$ 2,1 tri

faturamento anual das micro e pequenas empresas no Brasil

SEBRAE 2023

Segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM) de 2022, aproximadamente 21% dos adultos brasileiros entre 18 e 64 anos estão envolvidos com algum negócio em estágio inicial. O Brasil figura entre os três maiores países do mundo em empreendedorismo inicial, ao lado de Índia e Estados Unidos

Dado relevante

Em economias avançadas como Alemanha, EUA e Japão, mais de 70% dos empreendedores iniciais declaram agir 'por oportunidade'. No Brasil, historicamente, a parcela motivada por necessidade chegou a 40-50% em períodos de recessão (GEM, 2020-2022). Isso significa que parte relevante do empreendedorismo brasileiro não é estratégico, mas reativo às falhas do mercado de trabalho

O SEBRAE estima que 29% das micro e pequenas empresas fecham antes de completar 2 anos no Brasil, e a falta de preparo em gestão é apontada consistentemente como uma das principais causas. Por outro lado, quando o empreendedorismo é movido por oportunidade e sustentado por conhecimento sólido de gestão, os resultados são transformadores

6. Empreendedorismo Se Aprende

Talvez a crença mais prejudicial sobre empreendedorismo seja a de que ele não pode ser ensinado. Essa ideia não apenas é falsa. Ela é perigosa, porque serve de justificativa para não investir na formação empreendedora de profissionais que, com o preparo certo, poderiam criar valor enorme. Um estudo da Universidade de Arizona (2021), que acompanhou 1.200 empreendedores ao longo de 10 anos, concluiu que as competências mais determinantes para o sucesso empreendedor podem ser sistematicamente desenvolvidas através de formação adequada

A Babson College, considerada a melhor escola de empreendedorismo do mundo por mais de 30 anos consecutivos pelo US News & World Report, baseia todo o seu currículo na premissa de que o pensamento empreendedor é um método, não um temperamento

  • Leitura de mercado: identificar necessidades não atendidas, tendências emergentes e mudanças de comportamento antes da concorrência
  • Criação e avaliação de oportunidades: distinguir entre uma ideia interessante e uma oportunidade real de negócio
  • Tomada de decisão sob incerteza: agir com dados insuficientes, calibrar risco, testar hipóteses rapidamente
  • Liderança e construção de times: empreender é, fundamentalmente, convencer pessoas a seguirem uma visão e organizá-las para executar
  • Gestão financeira: entender fluxo de caixa, precificação, unit economics e retorno sobre investimento
  • Execução e resiliência: colocar planos em prática, aprender com o fracasso, adaptar a rota sem perder o destino

7. O Papel do Conhecimento de Gestão na Trajetória Empreendedora

Existe uma tensão aparente no universo empreendedor: de um lado, o empreendedor romanticizado que age por instinto; de outro, o gestor metódico que planeja cuidadosamente antes de agir. A realidade dos negócios mais bem-sucedidos mostra que essa dicotomia é falsa, e que a integração entre impulso empreendedor e solidez de gestão é exatamente o que separa os casos extraordinários das estatísticas de mortalidade empresarial

Pesquisa da Falconi (2023), realizada com mais de 500 CEOs de grandes empresas brasileiras, identificou que 80% possuem algum tipo de pós-graduação em gestão ou negócios. A maioria relata que o conhecimento formal foi decisivo para a capacidade de capturar oportunidades de forma sustentável

8. Novas Formas de Empreender no Mundo Que Vem

O Fórum Econômico Mundial, em seu relatório Future of Jobs 2025, projeta que 39% das habilidades profissionais atualmente valorizadas se tornarão obsoletas até 2030, ao mesmo tempo em que 170 milhões de novos postos de trabalho serão criados em áreas emergentes

8.1 Empreendedorismo em plataformas digitais

A economia de plataformas criou camadas inteiramente novas de empreendedorismo. Hoje, um criador de conteúdo com 50.000 seguidores pode construir um negócio de cursos, produtos digitais e serviços que gera mais renda do que muitas PMEs tradicionais. Esses modelos exigem compreensão de métricas digitais, gestão de comunidades, posicionamento de marca e estratégia de precificação: competências do campo da administração, não da tecnologia

8.2 Empreendedorismo de impacto

Pesquisa da Deloitte (2024) indica que 56% dos jovens profissionais brasileiros prefeririam trabalhar em empresa com impacto social positivo mesmo que isso implique salário menor. Isso está criando uma nova camada de empreendedores sociais: pessoas que constroem organizações financeiramente sustentáveis com missão explícita de impacto

8.3 Intraempreendedorismo corporativo como estratégia

No Brasil, empresas como Itaú Unibanco (com o cubo.network), Ambev (com o Ambev Tech) e Bradesco (com o inovabra) criaram estruturas específicas para fomentar o comportamento empreendedor dentro de suas organizações. O profissional que sabe se mover dentro dessas estruturas tem vantagem competitiva real

9. Então, Quem Pode Empreender?

Você. Independentemente de ser extrovertido ou introvertido, de gostar de tecnologia ou preferir pessoas, de ter 22 ou 52 anos, de trabalhar em uma multinacional ou em uma empresa familiar. O empreendedorismo não pede um perfil. Ele pede disposição para enxergar onde há valor a ser criado, e competência para capturá-lo

Para refletir

A única pergunta relevante não é 'tenho vocação para empreender?'. É: 'estou desenvolvendo as competências que me permitem empreender bem?' Essa distinção muda tudo. Porque vocação não se treina. Competência, sim

Para refletir

Pense nos maiores problemas que você já enfrentou em qualquer organização onde trabalhou ou estudou. Algum deles poderia ter sido resolvido de forma mais eficaz com mais iniciativa, mais criatividade e mais disposição para testar algo diferente? É quase certo que sim. Esse espaço entre o problema que existe e a solução que ainda não foi implementada é onde o empreendedor vive. E esse espaço existe em todo lugar

10. Para o Futuro Profissional: O Que Fazer Agora

  • Observe com intenção: nos próximos 30 dias, escolha uma organização que você conhece e identifique três processos, produtos ou serviços que poderiam ser melhores. Não para criticar. Para praticar o olhar empreendedor
  • Estude um caso por mês: escolha uma empresa brasileira que se transformou e responda: qual foi a oportunidade identificada? Quem a identificou? Que conhecimentos foram necessários para capturá-la?
  • Invista no conhecimento de gestão: o empreendedor que não entende de finanças, estratégia, marketing e operações não desaparece, mas erra mais caro. A formação formal em negócios é o melhor seguro contra os erros mais comuns
  • Conecte-se com quem já faz: eventos, mentorias, programas de aceleração, conversas com founders e gestores experientes. Essas trocas são insubstituíveis e aceleram brutalmente a curva de aprendizado

Empreender não é um destino reservado para os escolhidos. É um caminho aberto para quem desenvolve as ferramentas certas e cultiva a disposição de enxergar o mundo não como ele é, mas como poderia ser. O Brasil que queremos construir precisa de muito mais desses profissionais. E a melhor forma de trazê-los ao mundo não é esperar que a vocação apareça. É criar as condições para que a competência seja desenvolvida

Referências

  1. 1.BABSON COLLEGE. Entrepreneurship education: the Babson model. Wellesley: Babson College Press, 2022.
  2. 2.DELOITTE. Pesquisa Global sobre Millennials e Geração Z: Brasil. São Paulo: Deloitte, 2024.
  3. 3.FALCONI CONSULTORES DE RESULTADO. Perfil dos CEOs das maiores empresas brasileiras. Belo Horizonte: Falconi, 2023.
  4. 4.GEM (GLOBAL ENTREPRENEURSHIP MONITOR). Brazil Entrepreneurship Profile 2022/2023. London: GEM, 2023.
  5. 5.McKINSEY & COMPANY. The intrapreneurship premium: innovation cultures and corporate growth. New York: McKinsey Global Institute, 2023.
  6. 6.PINCHOT III, Gifford. Intrapreneuring: Why You Don't Have to Leave the Corporation to Become an Entrepreneur. New York: Harper & Row, 1985.
  7. 7.SCHUMPETER, Joseph A. Teoria do Desenvolvimento Econômico. São Paulo: Nova Cultural, 1997 [1911].
  8. 8.SEBRAE. Sobrevivência das empresas no Brasil. Brasília: SEBRAE, 2023.
  9. 9.STEVENSON, Howard H.; JARILLO, J. Carlos. 'A Paradigm of Entrepreneurship: Entrepreneurial Management'. Strategic Management Journal, v. 11, p. 17-27, 1990.
  10. 10.WORLD ECONOMIC FORUM. The Future of Jobs Report 2025. Geneva: WEF, 2025.
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