A Escolha que Ninguém Te Ensinou a Fazer
Vida Acadêmica

A Escolha que Ninguém Te Ensinou a Fazer

Mont School of Business10 Abril 202618 min de leitura

Indecisão vocacional, mercado de trabalho real e o papel de uma formação em negócios no século XXI

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Neste artigo
  1. 1O momento da escolha: a pressão dos 17 anos.
  2. 2Os dados sobre indecisão: você não está sozinho.
  3. 3A armadilha das respostas socialmente seguras.
  4. 4O Brasil real: onde as pessoas trabalham de verdade.
  5. 5O paradoxo do diploma: quando a formação não encontra a carreira.
  6. 6Empreendedorismo como destino majoritário.
  7. 7O futuro das profissões: o que ninguém consegue prever.
  8. 8A lógica da formação em negócios como base universal.
  9. 9Conclusão: a escolha mais inteligente é a que prepara para a incerteza.

Este artigo não é sobre o que você deve escolher. É sobre o que significa escolher com inteligência em um mundo onde as regras mudaram, e sobre por que uma boa formação em negócios pode ser a base mais sólida disponível para qualquer trajetória futura.

Este artigo foi produzido com base em dados públicos do IBGE (PNAD Contínua 2024), INEP (Censo da Educação Superior 2023-2024), Fórum Econômico Mundial (Future of Jobs Report 2025), Falconi (Perfil dos CEOs do Ibovespa, 2024) e pesquisas acadêmicas sobre orientação vocacional.

O Momento da Escolha: A Pressão dos 17 Anos

Existe um momento peculiar na vida de um jovem brasileiro que poucos reconhecem como o que de fato é: uma das decisões mais importantes da sua existência, tomada em condições de quase total desinformação, com enorme pressão social, em um dos períodos mais turbulentos da vida humana, a adolescência.

Aos 17 ou 18 anos, enquanto ainda descobrem quem são, o que valorizam, como funcionam sob pressão e o que os move profundamente, os jovens são convidados, muitas vezes compelidos, a responder uma pergunta que profissionais experientes de 40 anos frequentemente ainda reformulam: o que você quer ser na vida?

A pergunta carrega peso desproporcional. Implica que existe uma resposta certa. Implica que a escolha é permanente. Implica que indecisão é fraqueza. E, mais insidiosamente, implica que há um catálogo fixo de profissões, e que cabe ao jovem apenas apontar para uma delas. Essa estrutura de pensamento é, no mínimo, desatualizada. No pior dos cenários, ela empurra gerações inteiras para trajetórias que não escolheram de verdade, e que abandonam, de formas mais ou menos visíveis, ao longo da vida adulta.

Os Dados Sobre Indecisão: Você Não Está Sozinho

Quando um jovem do ensino médio diz que não sabe o que quer fazer, costuma ser tratado como exceção, alguém que precisa de mais orientação, mais maturidade, mais clareza. Os dados mostram o contrário: a indecisão é a norma.

82%.

dos jovens brasileiros relataram não saber ou ter dúvidas sobre o que querem fazer profissionalmente.

CMOV / Portal Unigrancapital, 2021.

Outro levantamento, desta vez com foco nos estudantes prestes a entrar no vestibular, apontou que mais da metade dos jovens no último ano do ensino médio não estava certa sobre o curso para o qual iria prestar a prova. Não eram poucos, eram a maioria.

Essa indecisão não reflete imaturidade ou falta de esforço. Ela reflete, em grande parte, a ausência de informação real sobre o mercado de trabalho, a falta de exposição prática a diferentes áreas de atuação e, fundamentalmente, a distância entre o que o sistema educacional oferece e o que o mundo profissional exige.

Para refletir

Se 82% dos jovens têm dúvidas sobre a profissão que vão escolher, a questão não é como resolver a dúvida mais rápido. A questão é como tomar uma decisão inteligente mesmo diante da incerteza, e como escolher uma formação que seja resiliente a essa incerteza.

A Armadilha das Respostas Socialmente Seguras

Quando um jovem indeciso é pressionado a responder o que quer ser, frequentemente recorre a um conjunto restrito de respostas que fazem sentido não por reflexão profunda, mas por serem socialmente seguras. As mais comuns são conhecidas por qualquer professor, pai ou orientador vocacional do Brasil: medicina, direito e engenharia.

Essas três respostas têm uma característica em comum: elas raramente geram ruído. Quando um adolescente diz que quer ser médico, os adultos ao redor geralmente respondem com aprovação imediata, independentemente de qualquer análise sobre perfil, aptidão, mercado ou propósito. A resposta resolve o desconforto social da pergunta.

Isso não significa que medicina, direito e engenharia sejam escolhas ruins. São formações excelentes, com mercados de trabalho sólidos e possibilidades reais de impacto. O problema está na motivação. Quando a escolha é feita para satisfazer a expectativa dos outros, e não como resultado de uma investigação honesta sobre interesses, competências e mercado, o alinhamento entre formação e carreira tende a ser frágil.

O que os dados de matrícula revelam

O Censo da Educação Superior de 2023, realizado pelo INEP, registrou os seguintes cursos como os de maior número de matrículas no Brasil:

PosiçãoCursoMatrículas (2023)Observação
Pedagogia852.476Liderança pelo EAD
Direito658.587Forte demanda presencial
Administração655.022Praticamente empatado com Direito
Enfermagem472.561Crescimento acelerado
Sistemas de Informação378.610Alta pelo digital
Psicologia343.391Crescimento por saúde mental

Chama atenção o fato de que Administração, frequentemente não mencionada como primeira opção quando jovens respondem sobre suas aspirações, está entre os três cursos mais procurados do país. E que medicina, frequentemente a resposta mais comum no discurso, não aparece no topo em número absoluto de matrículas, porque sua entrada é das mais concorridas do sistema, com notas de corte que a maioria dos candidatos não alcança.

Dado relevante

Para o Censo de 2024, o Brasil ultrapassou pela primeira vez 10 milhões de matrículas ativas no ensino superior. A área de negócios, gestão e administração representa uma fatia expressiva desse universo, bem acima do que o imaginário popular sugere.

O Brasil Real: Onde as Pessoas Trabalham de Verdade

A pergunta mais relevante, e menos feita nas conversas sobre escolha de carreira, não é 'qual profissão é mais prestigiada?', mas sim: onde estão, de fato, os 103 milhões de trabalhadores brasileiros?

103,3 mi

brasileiros ocupados em 2024, recorde histórico da série do IBGE, 2,6% acima de 2023

IBGE, PNAD Contínua 2024

19,8 mi

pessoas empregadas no setor de comércio e reparação de veículos, o maior grupamento ocupacional do Brasil

IBGE, PNAD Contínua 2024

29,8 mi

empregadores e trabalhadores por conta própria. Um em cada três trabalhadores brasileiros é autônomo ou dono do próprio negócio

IBGE, PNAD Contínua 2024

Esses números apontam para uma realidade fundamental: a maior parte da força de trabalho brasileira está em atividades que exigem, em algum grau, conhecimentos de gestão, comercialização, finanças, negociação e liderança. Não necessariamente com um diploma formal em Administração, mas com as competências que o estudo de negócios desenvolve.

A questão invisível

Se o mercado de trabalho é majoritariamente composto de atividades de gestão, comércio, serviços e empreendedorismo, por que o sistema educacional continua formando jovens como se o destino natural de todos fosse a medicina, o direito ou a engenharia?

O Paradoxo do Diploma: Quando a Formação Não Encontra a Carreira

Um dos fenômenos mais reveladores sobre a relação entre escolha de formação e trajetória profissional está nos dados sobre quem ocupa os cargos de mais alto nível nas empresas brasileiras, e com qual formação original chegou lá.

A consultoria Falconi analisou o perfil das lideranças das 82 empresas que compõem o índice Ibovespa da B3 no terceiro trimestre de 2024. Os resultados são, no mínimo, surpreendentes:

Formação de Origem% dos CEOs do IbovespaInterpretação
Engenharia47%Maior grupo, mas poucos atuam como engenheiros
Administração29%Segunda formação mais comum entre os CEOs
Economia9%Terceiro lugar
Direito3%Apesar do prestígio, menor presença executiva
Medicina3%Raro no topo das empresas listadas

O dado de Engenharia como formação original de quase metade dos CEOs das maiores empresas brasileiras merece atenção especial. Engenharia é uma excelente formação, mas esses profissionais, ao longo da carreira, migraram para funções de gestão, estratégia e liderança empresarial. Não estão construindo pontes ou projetando circuitos: estão tomando decisões estratégicas, gerenciando equipes, alocando capital e navegando ambiguidade.

80%.

dos CEOs das maiores empresas brasileiras continuaram estudando após a graduação. 49% fizeram MBA e 33% passaram por educação executiva.

Falconi, Perfil dos CEOs do Ibovespa B3, 2024.

Reflexão estrutural

O MBA é o curso de pós-graduação mais feito pelos líderes do topo das empresas brasileiras. Por que, então, a administração de empresas ainda é vista como uma escolha menos prestigiada na graduação? Essa dissonância diz muito sobre como a educação superior brasileira ainda não se atualizou em relação ao mundo do trabalho real.

Empreendedorismo Como Destino Majoritário

Existe uma narrativa persistente no Brasil, e no mundo, que trata o empreendedorismo como um caminho heroico e excepcional, reservado a uma minoria de pessoas dotadas de características especiais: tolerância ao risco, criatividade fora do comum, disposição para o sacrifício. Os dados não sustentam essa narrativa.

29,8 mi.

de empregadores e trabalhadores por conta própria no Brasil em 2024, crescimento de 1,8% em relação ao ano anterior.

IBGE, PNAD Contínua 2024.

Isso significa que quase 30% da população ocupada do Brasil é, de alguma forma, empreendedora, desde o microempreendedor individual que presta serviços até o fundador de uma empresa de médio porte com dezenas de funcionários. E esse número não inclui os empregados em empresas pequenas que precisam pensar e agir como empreendedores dentro das suas funções.

O empreendedorismo não é exceção. É estrutura. E a formação que prepara para empreender, com rigor, com método, com compreensão real de finanças, mercado e liderança, é uma das mais alinhadas com o destino real da maioria dos profissionais.

Empreendedorismo não é o contrário de carreira

Um equívoco comum no debate sobre formação é tratar o empreendedorismo como alternativa à carreira corporativa, como se fossem dois caminhos mutuamente exclusivos. Na prática, as trajetórias estão cada vez mais entrelaçadas. O profissional que passa por grandes empresas, aprende com a estrutura e depois funda seu próprio negócio é hoje mais regra do que exceção. A formação que prepara para os dois contextos, e que desenvolve as competências que circulam entre eles, é uma das mais valiosas do mercado atual.

O Futuro das Profissões: O Que Ninguém Consegue Prever

Esta seção começa com uma afirmação incômoda, mas necessária: nenhum especialista, nenhuma instituição e nenhum algoritmo é capaz de prever com confiabilidade quais serão as profissões mais bem remuneradas e mais demandadas em 2040. Qualquer resposta definitiva sobre o futuro do trabalho deve ser recebida com ceticismo proporcional à sua precisão.

170 mi

de novos postos de trabalho serão criados entre 2025 e 2030 no mundo, enquanto 92 milhões de empregos atuais devem ser substituídos ou modificados

World Economic Forum, Future of Jobs Report 2025

39%

das habilidades atualmente exigidas pelos empregadores devem ser transformadas ou tornarem-se obsoletas entre 2025 e 2030

World Economic Forum, Future of Jobs Report 2025

Entre as habilidades mais valorizadas pelo relatório para o período 2025-2030, destacam-se: pensamento analítico, resiliência e flexibilidade, liderança e influência social, criatividade e pensamento crítico, gestão de talentos, e aprendizado contínuo. É significativo notar que a maioria dessas habilidades não é técnica, é comportamental, relacional e estratégica. São as competências que uma boa formação em negócios desenvolve de forma mais direta.

O ponto central

As profissões que melhor resistem às transformações tecnológicas e econômicas não são as mais técnicas, são as mais humanas e as mais adaptáveis. Liderança, criação de valor, gestão de pessoas e visão estratégica são competências que atravessam setores, resistem à automação e tornam o profissional relevante em contextos que ainda não existem.

A Lógica da Formação em Negócios Como Base Universal

Se a maioria dos trabalhadores atua em funções que envolvem gestão, comércio e empreendedorismo; se os líderes das maiores empresas chegaram ao topo passando invariavelmente pelo aprendizado de negócios; se o futuro das profissões é incerto e as habilidades mais resilientes são as de liderança e pensamento estratégico, então faz sentido perguntar: por que a formação em negócios ainda não ocupa o centro do debate sobre escolha de carreira?

  • Compreensão financeira: capacidade de ler, interpretar e criar demonstrações financeiras; entender fluxo de caixa, valuation, estrutura de capital e tomada de decisão sob risco.
  • Visão estratégica: capacidade de analisar mercados, identificar posicionamentos competitivos, avaliar oportunidades e alocar recursos escassos com critério.
  • Liderança e gestão de pessoas: capacidade de construir times, alinhar incentivos, gerir conflitos e criar cultura organizacional de alta performance.
  • Habilidade comercial: capacidade de entender clientes, criar e comunicar valor, negociar e fechar acordos.
  • Empreendedorismo aplicado: capacidade de identificar problemas, criar soluções, validar hipóteses, construir modelos de negócio e escalar operações com método.
  • Pensamento analítico: capacidade de estruturar problemas complexos, trabalhar com dados incompletos e tomar decisões em contextos de incerteza.

As escolas de negócios mais respeitadas do mundo, Harvard, Wharton, London Business School, INSEAD, não formam apenas administradores. Formam líderes que depois se tornam médicos-executivos, engenheiros-empreendedores, advogados-estrategistas. A formação em negócios sempre foi, nas melhores instituições, uma formação de base para a liderança em qualquer campo.

Conclusão: A Escolha Mais Inteligente É a Que Prepara Para a Incerteza

Este artigo não defende que todo jovem deva fazer Administração. Defende algo mais amplo: que a indecisão é normal e esperada, que as respostas socialmente seguras frequentemente não refletem vocações reais, que o mercado de trabalho real é diferente do que o imaginário popular sugere, e que, nesse contexto, a escolha mais inteligente não é a que aponta para a profissão mais segura do momento, mas a que desenvolve as competências mais resilientes para um futuro imprevisível.

Há uma ironia nos dados sobre escolha de carreira no Brasil: os jovens dizem querer medicina, direito e engenharia, mas o mercado os absorve majoritariamente em funções de gestão, comércio e empreendedorismo. Os líderes das maiores empresas chegaram ao topo pelo aprendizado de negócios, independentemente do diploma original. E as habilidades mais demandadas para as próximas décadas são exatamente as que uma boa formação em negócios desenvolve de forma mais direta.

"Não saber exatamente o que você quer ser não é um problema a resolver. É uma condição a administrar. E a melhor forma de administrá-la é desenvolver as competências que permitem criar valor em qualquer direção que a vida tomará. Isso é o que uma formação em negócios, bem feita, oferece."

Referências

  1. 1.IBGE. PNAD Contínua 2024: taxa anual de desocupação e indicadores do mercado de trabalho. agenciadenoticias.ibge.gov.br.
  2. 2.IBGE. PNAD Contínua 2024: empregadores e trabalhadores por conta própria. ibge.gov.br.
  3. 3.INEP. Censo da Educação Superior 2023: notas estatísticas. Brasília: INEP/MEC, 2024. download.inep.gov.br.
  4. 4.INEP. Censo da Educação Superior 2024: apresentação de resultados. Brasília: INEP/MEC, 2025. gov.br/inep.
  5. 5.WORLD ECONOMIC FORUM. Future of Jobs Report 2025. Geneva: WEF, January 2025. reports.weforum.org.
  6. 6.FALCONI CONSULTORES DE RESULTADO. Perfil dos CEOs do Ibovespa B3. Análise das lideranças de 82 empresas do Índice Ibovespa, 3º trimestre de 2024.
  7. 7.CMOV / UNIGRANCAPITAL. Pesquisa sobre indecisão vocacional entre jovens brasileiros. blog.unigrancapital.com.br.
  8. 8.QUERO BOLSA. 10 cursos com o maior número de matrículas segundo o Censo da Educação Superior 2023. querobolsa.com.br.
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